Renault da Guarda

 Alexandre Monteiro e Jorge Marques Silva trabalharam durante mais de duas décadas na fábrica da Renault inaugurada a 2 de junho de 1964 pelo então Presidente da República, Américo Tomás.

Assinalaram-se na última segunda-feira os 50 anos da inauguração oficial da fábrica da Renault na Guarda. Foi a 2 de junho de 1964 que o então Presidente da República, Américo Tomás, veio à cidade inaugurar a unidade que começou a laborar no início desse ano. Para assinalar a data, O INTERIOR falou com dois antigos trabalhadores sobre a importância que as Indústrias Lusitanas Renault, que chegaram a empregar 500 trabalhadores, tiveram na cidade e na região.

O «orgulho» de servir «a primeira fábrica de montagem de automóveis do país»

Alexandre Monteiro tinha 21 anos quando, em dezembro de 1963, foi contratado pelas Indústrias Lusitanas Renault para assumir um cargo de quadro de chefia na fábrica que, durante cerca de 25 anos, laborou na Guarda até 1989. O histórico dirigente distrital dos Trabalhadores Social Democratas (TSD) deixou a unidade dois anos antes de fechar para assumir o lugar de deputado do PSD na Assembleia da República eleito pelo círculo da Guarda.

Alexandre Monteiro tirou o Curso Técnico Industrial na Escola Industrial e Comercial da Guarda e teve o seu primeiro «trabalho a sério» na fábrica da Renault na Guarda-Gare, onde desempenhou funções em vários sectores, desde a produção, controle e qualidade, métodos e tempos até ao serviço central de produção. O antigo funcionário da marca francesa enaltece o facto da Guarda ter sido «o “berço” da Renault em Portugal», naquela que foi «a primeira fábrica de montagem de automóveis do país», cujo «sucesso contribuiu muito para o progresso e desenvolvimento da cidade e da região». O autor do livro “Memórias de um Deputado da Província na Assembleia da República” tem bem presente alguns dados que atestam o crescimento da unidade fabril que começou com 50 funcionários a montar cinco 4L’s por dia e no seu «auge de produção» chegou a ter 500 trabalhadores que montavam entre 50 a 60 viaturas diariamente em 1980, altura em que a fábrica foi alvo de uma «reconversão e uma transformação tecnológica».

De resto, recorda com «satisfação» que a fábrica da Guarda «chegou a ser considerada, dentro do grupo, como a que tinha melhores índices de qualidade». Alexandre Monteiro sustenta que a Renault «era das melhores empresas da região a pagar em termos de salários» e «muito contribuiu para o progresso e desenvolvimento da cidade e da região», não escondendo que ainda hoje recorda «com saudades e orgulho aquela fábrica que era a “menina dos nossos olhos”» e que «dava grande movimento à cidade no comércio e serviços». Nesse sentido, é com «muita tristeza» que o antigo quadro vê hoje as instalações encerradas: «Trabalhei ali muito tempo, sempre com grande dedicação e sinto uma grande frustração por hoje ver aquela fábrica fechada e a não produzir riqueza absolutamente nenhuma e que tanta falta faz à Guarda». Alexandre Monteiro considera que os 50 anos da inauguração da fábrica deviam ter sido «devidamente comemorados» na passada segunda-feira e apela que seja reposta a placa com o nome de Joaquim Pina Gomes no largo fronteiro à fábrica por «uma questão de justiça e de reconhecimento por um homem que fez muito pela Guarda».

Renault dava «regalias que não se encontravam em mais lado nenhum no país»

Nascido «por acidente» em Lisboa, Jorge Marques Silva trabalhava na Câmara da Covilhã quando veio à Guarda para «tirar medidas para desenhar a estrutura metálica do telhado do pavilhão principal da Renault», ocasião em que soube que a fábrica estava a admitir pessoal. Candidatou-se e foi admitido em janeiro de 1964, quando tinha 27 anos, depois de ter estudado até ao segundo ano de Engenharia Mecânica , mas a sua «paixão foi sempre os automóveis e a mecânica e vi aqui uma porta aberta para poder vir trabalhar para o que eu gostava», realça.

O antigo trabalhador começou como chefe dos serviços técnicos, tendo passado depois pela conservação, investimentos e obras, organização e métodos e, nos últimos 10 anos, foi chefe de fabricação. Desde que começou a trabalhar na fábrica que Jorge Marques Silva reside num apartamento situado mesmo em frente às antigas instalações da Renault, daí que veja diariamente as instalações que estão à venda há algum tempo, o que lhe causa «muita tristeza». «Tenho pena quando olho para esta fábrica fechada e à venda porque passei aqui 28 anos a trabalhar, é uma vida. Ainda hoje todo o pessoal que aqui trabalhou se dá maravilhosamente bem porque isto não era uma fábrica, era uma família onde todos se davam bem uns com os outros», revela. Jorge Marques Silva também entende que os 50 anos da inauguração da fábrica não deviam ter passado “em branco” na cidade, adiantando que «tudo» foi feito para que se fizesse um almoço comemorativo. Na sua opinião, «até a Câmara devia estar metida no assunto porque os funcionários da Renault na altura eram conhecidos como os lordes da Guarda porque ganhavam muito bem e a cidade deve muito à fábrica».

O ex-funcionário realça que «o pessoal era tratado extraordinariamente bem, tínhamos regalias que não se encontravam em mais lado nenhum no país, a não ser na Nestlé, e houve muita gente que ganhou aqui a sua vida e que saiu para a reforma como eu», daí considerar que «só temos que dizer bem desta fábrica e é uma pena ter acabado». Sobre a denominação do Largo, Jorge Marques Silva está «indeciso» entre apoiar a escolha de Joaquim Pina Gomes, «quem interpelou o presidente da Renault para aqui montar a fábrica», e o próprio Basílio Caeiro da Mata, «que arriscou o seu dinheiro aqui e quem lançou esta fábrica».

Fábrica produziu cerca de 190 mil viaturas

A construção da fábrica da Renault na Guarda teve início em 1963, a montagem de automóveis começou em janeiro de 1964 e a inauguração oficial ocorreu a 2 de junho desse ano.

A primeira viatura produzida na Guarda foi uma 4L, de 850 centímetros cúbicos e três velocidades. Outros modelos produzidos na fábrica da Guarda-Gare foram o R5, R6, R8, R10, R12, R16 e a Trafic. No total, entre os diferentes modelos, foram montados na Guarda 189.461 veículos. Em 1989, a Renault vendeu a fábrica aos alemães da Reinshagen, ligados à General Motors (GM). A presença da GM nos componentes para o sector automóvel começou a fazer sentir-se através da Cablesa, que substituiu a Renault na Guarda, com a passagem da montagem automóvel para a produção de cablagens. Depois veio a Delco Remy e, posteriormente, a Delphi, até ao encerramento desta multinacional norte-americana em dezembro de 2010. Por estas semanas, os pavilhões estão a servir de apoio à logística das Forças Armadas que vão mostrar meios e equipamentos no Parque Urbano do Rio Diz no âmbito das comemorações do 10 de junho.

«Estamos quase abandonados aqui»

Desde que a Delphi encerrou portas em dezembro de 2010 que o negócio nunca mais foi o mesmo nos estabelecimentos situados no Largo 1º de Dezembro.

José Pissarra, proprietário de um café situado mesmo em frente às antigas instalações, lembra que «na altura da fábrica havia muita gente a trabalhar, tanto da Renault como da Delphi». O comerciante recorda-se que a zona tinha «muito movimento e muita gente», para além dos «muitos emigrantes» que chegavam regularmente, ao contrário do que sucede atualmente em que «estamos quase abandonados aqui». José Pissarra considera que o Largo deveria voltar a chamar-se Joaquim Pina Gomes e entende que «se deviam comemorar estes 50 anos de outra forma mas a Câmara segundo se consta está em dificuldades financeiras e também não poderá ser assim tão fácil».





A fábrica da Guarda nos anos de 1980


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Volkswagen Carocha 1300 com 2 Portas de 1968

UTIC

História das aeronaves militares Portuguesas